domingo, 18 de junho de 2017

Era uma vez um miúdo num país a arder

Apresentação do livro de MIGUEL CARVALHO "QUANDO PORTUGAL ARDEU - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril",  bar do Cinearte, A BARRACA, Lisboa 12 ABRIL 2017


Era uma vez um miúdo que tinha quatro para cinco anos no Verão Quente de 1975;
Fez 5 anos no dia 25 de Novembro de 1975 e nesse dia, para celebrar o aniversário do pequeno Miguel, a televisão passou um filme cómico com Danny Kaye.
A TV portuguesa não passava filmes cómicos desde o dia 12 desse mês de Novembro de 1975; nessa data, um almirante sem papas nem tento na língua rompera um cerco a São Bento disparando uma salva de impropérios.


Nos trinta e um dias do mês de Janeiro de 1976 – ia o Miguel a caminho, mas ainda distante, dos seis anos – registaram-se em Portugal 55 sessões de pirotecnia política; em Fevereiro, mais 21 sessões; e em Abril de 1976, a data da aprovação da Constituição, o mês começou com a morte do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes, à bomba.
E assim foi crescendo o jovem Miguel Carvalho: o Verão de 1976 aqueceu com as prisões dos primeiros elementos da rede bombista, entre os quais o alegado mandante Joaquim Ferreira Torres, industrial, autarca e cacique, libertado duas semanas antes do 25 de Novembro desse ano.

E em Agosto de 1979, faltavam 3 meses para que o Miguel completasse 9 anos, Ferreira Torres tornou-se sujeito de todas as primeiras páginas na manhã de 21 de Agosto. Naquela manhã, como era costume, Joaquim Ferreira Torres arrancou de Paredes cinco minutos depois das oito, com os matutinos do Porto no banco traseiro do Porsche vermelho. Mas o empresário nem sequer chegou a ler as gordas do último dia.

-        Um Governo para 100 dias. Pintasilgo passou no Parlamento.

-        Greve total de médicos, decretada pela Ordem.
-        Batata desapareceu do mercado.
-        Serra da Freita continua a arder.

No dia seguinte, seria ele próprio, Joaquim Ferreira Torres, o sujeito de todas as primeiras páginas.
Dez minutos depois de sair de Paredes, o Porsche do empresário estava imobilizado em contramão, no sítio do Barro Branco. Crivado de balas, o corpo de Ferreira Torres caíra para o banco do lado direito do Porsche, isto é, ocupava o lugar do morto.
O empresário tinha sido abatido após o Porsche ter sido imobilizado. Foi abatido de frente. Era a emboscada como vem nos manuais militares: o empresário caiu na zona de morte.
O miúdo nascido a 25 de Novembro de 1970 veio a tornar-se jornalista em 1989/90. E na edição de 20 de Agosto de 2009 – 30 anos depois dos acontecimentos – Miguel Carvalho publicou na Visão a investigação dos Mistérios do Barro Branco.
Escreveu:
 “Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.”
A reportagem do Miguel Carvalho foi muito justamente distinguida com o Grande Prémio Gazeta de Reportagem 2009, entregue em 2010.
Nesse mesmo ano, eu próprio recebi o Prémio Gazeta de Mérito, um prémio de fim de carreira. A cerimónia juntou-nos na Culturgest; mas nós já nos correspondíamos sobre histórias de Portugal.
Eu, Gazeta de Mérito, orgulho-me da amizade com um jornalista 30 anos mais novo, Grande Prémio Gazeta de Reportagem, de quem sou admirador.
Para lá dos prémios Gazeta e da carteira de jornalista, temos em comum o facto de nos tratarmos um ao outro por camarada. Que é assim o tratamento entre jornalistas, excepto para aqueles que têm mais preconceitos do que espírito de camaradagem.
O convite do Miguel Carvalho para apresentar este seu livro – Quando Portugal Ardeu - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril, editado pela Oficina do Livro – é uma honra, que cresceu à medida que fui lendo o livro.  
E, enquanto lia o livro Quando Portugal Ardeu, algumas interrogações tomaram conta de mim: Como é que o Miguel despertou para estes temas? Como é que o Miguel, entrou nestes enredos de terror, como é que ficou, à distância de três décadas, tão familiarizado com estes nomes, estas siglas, estes cenários, estes tempos?
E perante tantas e tão densas dúvidas, fiz o que deve fazer um jornalista: fiz perguntas, procurei respostas.

- Pergunta: Miguel, qual é a memória mais antiga que tens das histórias do teu livro?
E o Miguel respondeu-me por escrito - A memória mais antiga é, sem dúvida, ter ouvido falar, em casa, com 5/6 anos, do Ramiro Moreira, por diversas vezes. Não só por causa das notícias abundantes da época a propósito dos atentados bombistas, mas também porque uma das bombas que ele colocou foi no carro de um tio meu. É desse tempo, também, a memória de uma agressão do Ramiro e de outros elementos da rede ao meu avô paterno, que o deixou numa poça de sangue. De certo modo, tenho uma memória sensorial do fim da ditadura e dos primeiros anos de democracia. Em casa dos meus pais faziam-se jornais clandestinos – entre os quais o boletim A Terra – e antes e depois do 25 de Abril eu era, muitas vezes, acordado a meio da noite, embrulhado num cobertor, e levado para casa de outros familiares, onde pudesse estar mais seguro. Ainda hoje parece que sinto, na pele, aquele friozinho que sentia quando me acordavam de madrugada e embrulhavam num cobertor, entre ruído de vozes apressadas e sussurradas.

        - Pergunta: Miguel, ouvias então, muito próximo de ti, falar destas histórias, em miúdo?
- E o Miguel respondeu - Ouvi sempre. Cresci nesse tempo de grandes esperanças e sonhos, de excessos, de radicalismos, e isso foi sempre assunto de conversa nas várias casas de familiares. A família paterna, de fortes tradições republicanas, estava ligada ao PCP desde os tempos da ditadura e tenho uma tia que esteve dois anos na clandestinidade. Do lado materno, o envolvimento político era menor, mas dividia-se entre o PS e o PPD. Tudo isso me influenciou, como é óbvio. Familiares relativamente afastados, ligados ao PS, chegaram a ameaçar o meu pai, com cintos e catanas, por causa de simples colagens de cartazes. Um tio do lado materno teve um carneiro a quem chamava Cunhal e, quando o bicho morreu, pendurou a cabeça dele na parede como se fosse um troféu. J “Estás a ver o que acontece aos comunas como o teu pai?”, dizia-me ele. No hard feelings - Comenta o Miguel.
Tive também um tio, do lado materno, a quem devo o facto de hoje ser adepto do FC Porto (ele tinha camarote nas Antas). Ele era também devoto do Sá Carneiro. Lembro-me perfeitamente de ver esse meu tio aparecer em casa dos meus pais e passar longas noites em conversa com o meu pai, sem nunca se chatearem e irem ao ponto de se admirarem. Fazia-me muita confusão e lembro-me de ter pensado: “Então isto anda tudo à bulha, eles são de partidos tão diferentes e dão-se bem?” 
- Pergunto-lhe ainda: Miguel, a tua curiosidade, como investigador, tem uma raiz mais funda do que o jornalismo?
- Pergunta difícil de responder – responde o Miguel Carvalho. – Vamos lá... em miúdo era conhecido por ser um bocadinho Tom Sawyer. Tudo o que fosse desconhecido, diferente, inóspito, perigoso, me atraia de forma vertiginosa. Daí o rol de feridas, rasganços, tombos e afins que coleccionei, com reprimendas a condizer. Talvez venha daí. De subir às árvores, de brincar nos sítios mais perigosos das bouças, de passar um dia inteiro fora de casa, com amigos, entre poços, casas abandonadas, riachos, etc., nos arredores rurais do Grande Porto, ou de querer formar clubes de detectives com os amigos. Pelos 6/7 anos começou o fascínio dos jornais (mais tarde viriam os livros do Sherlock Holmes).
Havia muitos jornais lá em casa – as respostas também passam por aqui, digo eu –, havia muitos livros, sempre, mas nunca eram suficientes. Queria ler tudo, tocá-los, cheirá-los. Pegava em folhas A4 e tentava reproduzir manchetes, notícias, etc., uma maluqueira! Já com 9/10 anos, quando aos fins-de-semana ia para casa da minha avó materna, roubava dos quiosques os jornais a que não tinha acesso (o dinheiro era contadinho lá em casa) e também trazia para casa os jornais que a vizinhança abandonava, em pilhas, no lixo (O Jornal, Tempo, etc...). Na escola fartei-me de fazer
fan zines que depois vendia aos colegas e aos professores. Um ou outro texto sobre as condições ou algum problema da escola valeram-me chamadas ao conselho directivo ou advertências de professores.
As semanadas da minha avó eram todas gastas em jornais. Ao sábado, esperava horas infindas nos quiosques pela chegada, ao Porto, dos vespertinos, e comprava sempre o que viesse mais volumoso. Daí, que ainda hoje, às vezes do nada, me venham à memória personagens, episódios e acontecimentos que, na altura, não tinha maturidade para compreender. Hoje, a minha casa é a casa típica de um farrapeiro: caixas de arquivos, dossiês, jornais antigos, papelada que nunca mais acaba

Às histórias que passaram ao lado da sua infância, o Miguel Carvalho acrescentou uma grande capacidade de pesquisar, de seleccionar, de organizar e relacionar dados, de tirar conclusões, cultivar e manter fontes muito bem informadas, de consultar com método e espírito crítico muitas e diferentes fontes documentais, de identificar o fio e o enquadramento das histórias e, por fim, o Miguel Carvalho acrescentou a todo este trabalho exaustivo a arte de saber contar bem as histórias.
Estes episódios de Quanto Portugal Ardeu estão muito bem escritos e muito bem organizados, cada um de per si e no conjunto do volume. 
O formato muito original e muito conseguido do livro sobre os sucessivos Verões Quentes que fizeram arder o País consiste no relato em episódios sobre a ofensiva organizada, financiada, enquadrada estrategicamente, dirigida no terreno, contra o período mais rico, criativo, participado, generoso e fraterno da história recente de Portugal.
Cada um dos 18 episódios do livro do Miguel Carvalho é uma história, uma história que vive por si mas que é também uma peça de um puzzle, uma história com os seus quês de tragédia e / ou de comédia, e que faz parte de uma história mais geral: é a história de uma festa que foi bonita, pá… mas que azedou.
 Morre-se neste livro; morre-se de sair à rua, uma rua banhada de cravos e de palavras de esperança, porque o revanchismo respondeu a tiro, no 25 de Abril, e à bomba, um ano depois; também se conspira, se trai, se faz negócio, nos enredos deste livro: conspiram diplomatas, políticos, caciques, civis e militares, laicos e eclesiásticos; também se rouba, se contrabandeia, se trafica, se intruja, se rapina.
Houve muitos criminosos envolvidos nestas histórias, mas houve também muitos mais cúmplices. A prova disso é que estas histórias acabam com numerosas vítimas mas sem culpados.
Os cromos destas 18 histórias, que somadas contam a crónica de um Portugal a Arder, num Verão Quente como não houve outro, são figuras patéticas de uma banda-desenhada de terror: mataram pessoas mas, eles próprios, viram-se a contas com a crónica de uma morte anunciada.
O Miguel escolheu bem as suas 18 histórias e a ordem pela qual as publicou em livro. E foi meticuloso ao colocar a história de Os segredos Barro Branco – isto é, a história do assassínio do cacique Joaquim Ferreira Torres a encerrar a série de episódios de mm País a arder. Hoje dir-se-ia que o assassínio de Ferreira Torres é a história estruturante deste romance de terror, que é afinal simplesmente um repositório de reportagens de investigação de um grande jornalista.
Eu escrevi sobre este e outros assuntos daquele tempo em que Portugal ardia, nas páginas do jornal O Diário, a partir da delegação do Porto. Depois, senti necessidade, tal como penso que aconteceu com o Miguel, de fixar algumas daquelas histórias de modo mais perdurável do que uma mera página de jornal que se lê um dia e se deita fora antes que chegue o dia seguinte.
E num livreco intitulado Polícias e Ladrões, publicado pela Caminho em 1983, reproduzi e acrescentei algo ao que havia escrito no jornal, sobre o caso de Uma Meada com Muitas Pontas, na qual se cruzava O Caso Torres, com uma Teia da Extrema-Direita, com delitos comuns, uma e outra a darem-se cobertura política e a financiarem-se, culminando tudo num estranho caso de crimes perfeitos, na medida em que, sendo crimes, compensaram. Ninguém acusou, ninguém foi condenado. E eu perguntava em 1983: quem os protege? Ninguém respondeu.
A não ser eu próprio, que respondi em tribunal.
O Miguel Carvalho pega em algumas destas e em diversas outras histórias e personagens com muito mais metier do que eu lhes peguei, com mais método, mais técnica e mais ciência, com mais pesquisa, mais fontes e mais documentos. Embora conheça e me recorde de algumas das fontes citadas pelo Miguel.
Nos tempos em que as coisas aconteceram, eu pesquisei e redigi as reportagens que deram origem ao livro Polícias e Ladrões, que o Miguel Carvalho inclui na sua bibliografia de consulta. Nesses tempos, escrevia-se talvez com muita emoção mas seguramente com menos rigor do que o Miguel escreve sobre os tempos destas Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril.
Digo-o sem excesso de humildade nem sobras de altivez.  
O livro do Miguel Carvalho tem o tempo a seu favor. O tempo arrefeceu as cinzas e as histórias, à distância, vêem-se com distanciamento, coisa que não havia no meio das labaredas.
É muito importante que alguém conte estas histórias quarenta anos após os acontecimentos. E é muito importante que esse alguém seja um jornalista como é o Miguel Carvalho.

No final do mês de Março, um camarada nosso da rádio, camarada cujo ofício é dar notícias, anunciou-me com entusiasmo que o livro do Miguel Carvalho Quanto Portugal Ardeu figurava num TOP de vendas, bem à frente das Memórias de Cavaco Silva.
Fiquei muito satisfeito, pelo Miguel e pelos leitores que procuram esta leitura. E que certamente encontram no livro Quando Portugal Ardeu mais do que aquilo de que vão á procura.
Cada linha destas histórias, neste livro de mais de 550 páginas, custou certamente ao Miguel Carvalho muitas e muitas horas a cultivar contactos e a consultar fontes, a vasculhar papéis e a conferir testemunhos, a sondar a história e a cruzar informações, a seguir e a segurar perfis fugidios. E provavelmente, pese embora o tempo que passou, custou-lhe também enfrentar algum risco.
Não nos esqueçamos que houve um tempo em que este País ardeu, porque houve quem lhe pegasse fogo; e houve os que deixaram arder.
O livro do Miguel Carvalho não deixa que esqueçamos que ninguém matou João Arruda, na Rua António Maria Cardoso, no dia 25 de Abril de 1974; ninguém matou Vítor Bernardes, em 14 de Agosto de 1974, quando passou pela PSP no Rossio para ir à farmácia de serviço comprar um medicamento para o filho; ninguém matou o Padre Max nem a estudante Maria de Lurdes, em 2 de Abril de 1976, data da Constituição da República; ninguém matou Rosinda Teixeira, nos escombros da sua casa, em São Martinho do Campo; como também ninguém calou a boca ao cacique de Murça, no sítio do Barro Branco, assim como ninguém matou à bomba Adriana Corcho e Efrén Monteagudo, na Embaixada de Cuba em Lisboa, 1976.  
Ninguém os matou; certo é que eles morreram. Lembrem-se disto. Esta democracia não assenta propriamente em brandos costumes. 

João Paulo Guerra

Lisboa, bar do Cinearte, Teatro A Barraca, 12 de Abril de 2017

2 comentários:

Fernão disse...

Apesar de estares num Bar estavas bastante lucido Vou comprar
Grande Abraço
Paiva de Andrade

Helder Fráguas disse...

Sou fã desta obra "Quando Portugal Ardeu". Terminada a sua leitura e feitas algumas releituras, pesquisei no Google sobre este magnífico livro de Miguel Carvalho.
E vim parar a um fabuloso artigo de alguém de quem sou fã incondicional: João Paulo Guerra, que oiço diariamente na Antena 2.