segunda-feira, 22 de junho de 2015

Primeiros refugiados de Angola são de Cabo Verde

 Por João Paulo Guerra, Emissora Nacional, Ilha do Sal, 24 de Agosto de 1974

Ilha do Sal 
         Centenas de cabo-verdianos estão a ser transportados por via aérea de Luanda para a Ilha do Sal, em Cabo Verde, após terem sido escorraçados de bairros periféricos da capital angolana. Dois aviões de grande porte chegaram esta manhã, outros dois são esperados logo à tarde. Este trânsito de população pressupõe organização e apoio que, a nosso ver, só o Estado – neste caso a Junta Governativa de Angola – poderão promover e dispensar.

Em Lisboa Já se admitia recentemente um êxodo em larga escala, de Angola para Portugal, face ao número sempre crescente de residentes no território angolano, e também moçambicano, que têm viajado para a chamada Metrópole. Mas esta parece ser a primeira debandada: parte de Luanda, destina-se a Cabo Verde e é constituída por cabo-verdianos.
Falando com estes refugiados – com os poucos que aceitam falar para um microfone – não é fácil perceber o que se está a passar.
Todos os refugiados com quem falámos eram até há pouco comerciantes, e respectivas famílias, em bairros periféricos de Luanda. Todos referem os incidentes raciais violentos que se verificaram nesses bairros, desde Julho passado e nos primeiros dias de Agosto. Todos insinuam que depois dos incidentes passaram a ser hostilizados pela população local. Para prevenir novos incidentes, a população cabo-verdiana foi evada dos musseques e acantonada na Ilha do Mussulo. O último passo desta deslocação foi o embarque de avião para Cabo Verde.


- Como se chama?
- Costa.
- Nome completo?
- Não interessa.
- O que fazia em Luanda?
- Comerciante.
- O que aconteceu?
- Guerra entre pretos e brancos.
- Onde?
- Cazenga.
- E vocês estavam de que lado dessa guerra?
- De nenhum. Mas os pretos dizem que estávamos com os brancos.
- Eles desconfiavam de vocês?
- Isso.
- O senhor, como se chama?
- (não responde)
- Que fazia em Luanda?
- Venda de géneros.
- Alimentação?
- Alimentação e casa.
- Que lhe aconteceu?
- Entraram lá e mandaram-nos para a cidade.
- Expulsaram-no do musseque?
- Sim.
- Porquê?
- Por coisas que diziam.
- Que coisas?
- (não responde)
- E para onde vai?
- Agora não sei.
O seu nome, por favor?
- José Francisco.
- De onde vem?
- De Luanda, bairro da Samba, mas agora estava na ilha.
- Como foi para a ilha?
- Autoridades mandaram, disseram que era melhor sair do musseque e fomos para a ilha.
- Que é que se passou no musseque?
- Uma guerra.
- E como começou essa guerra?
- Foi quando mataram o taxista. Depois a polícia e a milícia andava a fazer perguntas para saber quem matou o taxista.
- A si também lhe perguntaram?
- Perguntaram a todos os comerciantes, com o era costume.
- Era costume?
- Quando havia maca vinham, perguntar o que a gente sabia?
- E o senhor sabia quem matou o taxista?
- Não.
- E disse-lhes que não sabia?
- Disse.
- Essa polícia que ia fazer perguntas andava fardada ou à civil?
- Fardada não.
- E depois?
- Depois a população atirava pedras no comércio.

Este é um caso que está certamente no início e que vai dar mais que falar. Estes cabo-verdianos escorraçados dos musseques de Luanda escondem alguma coisa, vêm com medo e não sabem para onde vão.
João Paulo Guerra, Emissora Nacional, Ilha do Sal, Cabo Verde
24 de Agosto de 1974

1 comentário:

Alvaro Marques disse...

Na altura, esta reportagem do João Paulo deixou-me quase indiferente; então outras prioridades se impunham a cada momento. Agora, passadas algumas décadas, o horror do conflito rácico abála-nos mais. Os anos temperam os acontecimentos; dão-lhes outra dimensão, mostrando como os pequenos universos se manifestam. Obrigado João Paulo Guerra por este bocado de História.