sábado, 9 de julho de 2016

Nuno Brederode: A ironia serve-se quente

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 31 de Janeiro de 2001
Fotos de Miguel Baltazar

Naquela tarde, no restaurante Isaura, em Lisboa, a dada altura do almoço veio à conversa José Cardoso Pires. Melhor dizendo, tomou lugar à mesa e ninguém viria mais a propósito. O convidado do Diário Económico naquele dia bem pode ser visto como um «indivíduo meditado», um «esclarecido», que cultiva o «primado da inteligência», afinal um «descendente actual em linha directa dos libertinos de boa estirpe», como diria o autor da Cartilha do Marialva. Como cronista, nas páginas do Expresso, tem aliás travado um duro e persistente combate contra a mais recente extracção do marialvismo, e a respectiva fisionomia política, que é o «profundo desdém por todas as coisas do espírito». Chama-se Nuno Brederode Santos, tem 56 anos, é assessor da administração do IPE e consultor político do Presidente da República.


A arma do seu combate é a ironia. E como se trata de um combate, o combatente escolhe o seu campo e define o adversário. «Sei ser isento mas não quero. Quero estar com os meus e contra os meus adversários. Cada um escolhe o seu campo, excepto uns tipos que falharam o seminário e que dizem ser isentos».
O combate tem evidentes contornos políticos e a correspondência que recebe confirma que os campos estão marcados e extremados. «Recebo cartas de chuchas sectários que fazem muitos elogios e de laranjinhas que chamam nomes à minha mãe». Como homem político de esquerda e cronista, Nuno Brederode Santos tem não só adversários como também inimigos. «Tenho um rol de inimigos de que muito me orgulho». Não cita nenhum em particular. «Não lhes faço propaganda, não os promovo, não lhes ponho o nome no jornal». Por outro lado, considera que a amizade é ainda um valor na política e essa é aliás a base das funções que desempenha em Belém. «O Jorge [Sampaio] é o meu melhor amigo, como que um irmão».
Nuno Brederode Santos não quer outro percurso nem qualquer carreira política. «Quero ser um cidadão livre». Seja como for, o combate político não é um duelo ao pôr-do-sol. Cinéfilo que cita de cor diálogos de westerns clássicos, diz que já não há cowboys, nem índios, e que nem conhece heróis. «O herói suscita um sentimento que eu não tenho: a admiração. Eu não admiro os meus contemporâneos. Resta-me admirar os clássicos». Mas se vivesse no século XVII, provavelmente não admiraria Shakespeare. «Visto no seu tempo, seria um manga-de-alpaca, vagamente suspeito de pedofilia, que cumpria um trabalhinho de funcionário público como amanuense da Corte».
Com uma cultura literária - «a dos meus filhos já é audiovisual» -, Nuno Brederode Santos ficou-se até hoje, na escrita, pela crónica e o jornalismo. Mas tem na gaveta duas páginas de um conto por contar: «O Dia em que Deus conspirou contra a Literatura, chamando ao seu seio Shakespeare e Cervantes, que nunca se conheceram».
As tecnologias não lhe inspiram qualquer superstição. Mas a verdade é que um futuro dominado pelas máquinas lhe mete medo. «Um medo mais suportável que o que tinha uma pega no tempo de Jack, o Estripador». A verdade é que temos hoje conhecimentos «que dão um lastro de informação brutal sobre a civilização e o mundo, como também a noção da imensidão do que há para conhecer e que não conhecemos». 
E é assim que o mundo se aproxima mais da realidade inquietante prevista por Orwell que da ficção científica. Nuno Brederode Santos está, apesar de desconfiado, confiante. «Acredito mais num refluxo dos instrumentos do que na subjugação do homem à máquina». À cautela, porém, não se vê «a fazer grandes voos de computador» e despreza o telemóvel. «É um bufo que diz a toda a gente onde estou e onde posso ser chateado a qualquer hora». Quanto a tecnologias, estamos falados. Nuno Brederode Santos mantém o seu sentido de voto. «Vai para o inventor do autoclismo, que não sei quem foi».
Homem de esquerda por temperamento e socialista por militância, digamos que vaga e franco-atiradora, Nuno Brederode Santos considera que tem características conservadoras. «Cumpridos os meus deveres de homem de esquerda, o meu carpe diem é conservador». Frequenta todos os dias o mesmo restaurante, todas as noites a mesma tertúlia, no mesmo bar, e as viagens começam a cansá-lo. «Ainda por cima não me deixam fumar». Condena todos os fundamentalismos, designadamente o ambientalista, e apesar de um gosto particular pela zoologia, lança o desafio: «Informem-me se há provas de que ainda haja um lince na Malcata».
Formado na geração da crise académica dos anos 60 e na cultura da resistência à ditadura, Nuno Brederode Santos está de acordo com quem diz que a democracia está incompleta. Custa-lhe a compreender que uma coisa completa «não seja substituída» e diz mesmo, citando Poe: «Um barco não está completo antes de naufragar». Uma democracia completa significaria que «os democratas se sentavam a olhar uns para os outros». Mas salienta que «as estatísticas confirmam que a esmagadora maioria da população vive melhor que no tempo da ditadura» e a observação directa comprova que «o país está irreconhecível, para melhor».  
Não se surpreende, no entanto, com o estudo recente que revela que os portugueses são um povo conformado com as desigualdades sociais. «Não sei se é estrutural ou epidérmico. Mas 48 anos de ditadura correspondem a duas gerações e criaram uma cultura de resignação». No entanto, as reivindicações, mesmo que puramente corporativas, estão na rua. «Até os antigos combatentes já se manifestaram na rua. Não sei se para reivindicar o direito à guerra. Se foi, acho que devia ser-lhes concedido».  
«Racionalista em exercício», diria Cardoso Pires, praticante de uma ironia  cortante, Nuno Brederode Santos confessa no entanto que as emoções podem levá-lo às lágrimas. É o que acontece ao ouvir o Triplo Concerto de Beethoven, quando Karajan liberta Rostropovich, Oistrakh e Richter para a competição a solo. Não é no entanto um melómano. «Só percebi que Freddy Mercury cantava bem quando o ouvi em dueto com a Monserrat Caballé». Ainda gosta dos Beatles, de Cat Stevens, de Elton John. E quando lhe pergunto se foi ao concerto de Elton John no Casino do Estoril, responde-me: «Não fui eu, nem ele».
A música entrou na conversa por altura dos cafés. Ficamos por aqui.

Pataniscas
O jornalista do DE convidou Nuno Brederode Santos para almoçar no restaurante Isaura, em Lisboa. De uma lista que é uma viagem pela agricultura, a pecuária, a pesca e a caça, o convidado deteve-se na gastronomia lisboeta. «As pataniscas são pequeninas?», quis saber. Eram e foi o que veio.
Numa mesa próxima almoçava naquele dia o presidente da CGD. No final do seu almoço, António de Sousa veio cumprimentar Nuno Brederode Santos. O DE ficou a saber que foram em tempos grandes adversários de matraquilhos e que o derradeiro jogo terminou com um conclusivo e definitivo António de Sousa 7 Nuno Brederode Santos 3.   

João Paulo Guerra, Diário Económico, 31 de Janeiro de 2001


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